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A melhoria do planeta num plano de negócio

Investir em empresas sociais e em projetos voluntários alinhados à área de atuação das corporações se torna uma realidade no Brasil

Peter Drucker, o primeiro acadêmico a tratar a administração de empresas como uma ciência, nos anos 1940, defendia que a responsabilidade social primordial de uma empresa é gerar lucro. Essa premissa, no entanto, está ligada à entrega de valor para a sociedade, o que inclui a atuação social corporativa. Setenta anos depois de publicar seu primeiro livro, o austríaco ainda é uma das principais referências do universo corporativo e seus ensaios integram a grade de escolas de administração mundo afora. 

Estudos complementam a visão de Drucker ao afirmar que, quando feitos de forma perene, projetos de responsabilidade social promovem a diferenciação da empresa junto ao público consumidor, aos acionistas e aos funcionários. “Como a empresa depende da sociedade, é importante que ela ajude a desenvolver essa mesma sociedade”, explica o professor do departamento de Gestão Pública da FGV-SP, Fernando do Amaral Nogueira. “Em momentos de crise, como o atual”, acrescenta Nogueira, “ser reconhecida como uma companhia socialmente responsável significa ter maior crédito junto à sociedade, o que pode ajudá-la a se recuperar mais rapidamente.”

A média dos investimentos das companhias brasileiras em suas áreas de responsabilidade social corporativa está alinhada ao montante mundial – cerca de 1% do lucro é destinado a essas iniciativas. Mas, para ser efetiva, a atuação social das corporações deve estar alinhada à governança corporativa. “Não adianta fazer projeto social e se envolver em práticas de corrupção ou usar trabalho escravo. É preciso que haja coerência na tomada de decisões da companhia”, alerta Nogueira. Segundo o professor da FGV, uma tendência mais recente das companhias é o alinhamento entre as atividades de negócios e as ações sociais. “Isso traz maior relevância para o projeto social e a companhia corre menos risco de errar. Mas, em contrapartida, algumas áreas, como a de Direitos Humanos, podem ficar desassistidas de recursos”, afirma.

Outra iniciativa que vem ganhando espaço são os negócios de impacto social, ou seja, as iniciativas que aliam o cunho social com retorno financeiro, usado para remunerar acionistas e também para financiar a atuação voluntária. Um exemplo é o Geekie, uma startup brasileira de tecnologia na área de educação que oferece cursos e serviços pagos para escolas particulares. Parte desses recursos é usada para custear a oferta gratuita para as públicas. Presente em cinco mil colégios, a iniciativa já foi usada por 5 milhões de estudantes. Criada em 2011, ela recebeu aporte do Virtuose, fundo de investimento da família Gradin, sócia do grupo Odebrecht, no ano seguinte. Outro exemplo é a startup Tamboro, que produz jogos virtuais para melhorar a qualidade da educação do ensino básico e que recebeu aporte do Vox Capital, que tem entre seus fundadores Antonio Moraes Neto, um dos herdeiros do Grupo Votorantim.

De acordo com um relatório do Global Impact Investing Network, os negócios de impacto movimentaram cerca de US$ 15 bilhões no ano passado. Segundo a entidade, esse número deve subir para US$ 17,7 bilhões neste ano. Estima-se que haja cerca de 30 iniciativas de impacto no Brasil. Este conceito, que alia uma proposta de negócio com ações sociais, surgiu com o banco de microcrédito Grameen, em Bangladesh, nos anos 1970. Seu criador, o economista Muhammad Yunus, ganhou em 2006 o Nobel da Paz pela iniciativa.

 

Confira, os principais projetos de cidadania corporativa no Brasil

 

Sem armas na rede

O Facebook proibiu seus usuários de usarem sua plataforma de comércio eletrônico para a venda de armas de fogo. Nos Estados Unidos, o comércio de armamentos pela internet tem pouco controle, favorecendo a compra por criminosos. A decisão foi tomada a pedido de associações favoráveis ao controle de armas

Empresa social

A Danone criou o projeto Kiteiras, que visa estimular o empreendedorismo, sobretudo entre as mulheres, a partir da venda de iogurtes em kits, no modelo porta a porta. A iniciativa teve início em Salvador e conta com financiamento do Fundo Ecosystema, da própria companhia, e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)

Crédito humanitário

A MasterCard lançou um produto para facilitar a distribuição de ajuda humanitária, a plataforma de pagamentos eletrônicos MasterCard Aid Network. Os cartões pré-pagos podem ser carregados com produtos físicos, em vez de dinheiro. Os beneficiários podem usá-lo para receber alimentos, remédios e até abrigos

Educação em Londres


A BG Brasil, uma subsidiária do grupo holandês Shell, irá premiar as experiências de ensino mais inovadoras e criativas realizadas na rede de escolas públicas do Estado do Rio de Janeiro. Os professores, que podem se inscrever até 20 agosto, concorrem a  uma viagem para Londres, onde farão uma imersão no sistema de ensino

Logística reversa

A Grey Brasil, agência ligada ao Grupo Newcomm, criou uma plataforma de código aberto para facilitar a doação de alimentos. Em parceria com a Associação Pizzarias Unidas, ela desenvolveu um sistema que permite a entregadores de pizza recolherem alimentos, que são encaminhados à ONG Banco de Alimentos

Moda sustentável

A C&A já investiu R$ 125 milhões em cerca de 2 mil projetos sociais no Brasil por meio do seu instituto, desde 1991. A partir deste ano, o braço de filantropia da empresa estará focado em três áreas para melhorar a cadeia de produção da indústria: algodão sustentável, melhores condições de trabalho e combate ao trabalho forçado

Investimento de impacto


A Google.org escolheu cinco ONGs que irão receber um investimento de R$ 1,5 milhão, cada. Três delas atuam na área de políticas públicas: ITS-Rio, Vetor Brasil e Transparência Brasil. As outras são a Arredondar, que criou um sistema de microdoações, e a IPAM Amazônia, de assistência às comunidades indígenas

Ribeirinhos bancarizados

O Bradesco e a Fundação Amazonas Sustentável estão levando os serviços bancários para regiões remotas na Amazônia. Em junho, foi inaugurada uma unidade do banco na comunidade Cuianã, a 12 horas de barco do município mais próximo, Anori, no Amazonas. É possível fazer saques, consultas de saldo e empréstimos

RH Social

A holandesa Randstad firmou uma parceria com a Yunus Negócios Sociais, que representa, no Brasil, a ONG criada pelo ganhador do Nobel da Paz, em 2006, Muhammad Yunus, considerado o pai do microcrédito. A empresa irá oferecer suporte nas áreas de recrutamento, orientação de carreira e desenvolvimento de projetos

Construindo o futuro

A construtora MRV vai destinar 1% do seu lucro líquido, o equivalente a R$ 5 milhões, para o Instituto MRV, seu braço de filantropia. O objetivo é investir em iniciativas que favoreçam a educação. Entre os projetos selecionados está a Associação Querubins, que promove a difusão da arte e do esporte a crianças carentes

 

Artigo original:
http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/negocios/20160624/melhoria-planeta-num-plano-negocio/386939

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