A arte de se demitir deixando as portas abertas

Quatro profissionais, entre eles o diretor geral da Harley-Davidson, revelam como foi a experiência de pedir as contas para encarar um novo desafio e depois voltar para a antiga empresa

 

A busca por oportunidades para desenvolver a carreira muitas vezes termina em uma mudança de emprego. E não é raro que essa movimentação aconteça com o profissional migrando para a concorrência. “Agindo de forma transparente no momento do desligamento, o colaborador consegue deixar as portas abertas para uma volta, por iniciativa própria ou por convite da empresa”, diz Juliano Gonçalves, diretor de recrutamento especializado para média e alta gerência da Randstad.

Para fazer a intermediação desse retorno, existem dois caminhos. “Se há uma proximidade com o ex-gestor, o assunto pode ser tratado com ele de forma direta, já em um primeiro contato”, afirma Gonçalves. “O momento é para falar de expectativas profissionais, não de salário ou benefícios.” Quando não há essa intimidade, o ideal é procurar alguém do RH.

A seguir, o diretor geral da Harley-Davidson para América Latina, a gerente de tesouraria da Votorantim, o gerente financeiro do Grupo Cataratas e a analista de marketing do HostGator contam como foi a experiência de sair da empresa e voltar para continuar crescendo.

Waldyr Ferreira, diretor geral da Harley-Davidson América Latina

A primeira passagem de Waldyr, 43 anos, de São Paulo, pela Harley-Davidson teve início em 2013 e durou dois anos e meio. Nesse período, ele foi gerente de desenvolvimento de rede e de operações de mercado.

Em 2015, foi convidado a participar de um processo de seleção que culminou na sua contratação como diretor geral da Triumph. “Sempre tive por princípio conduzir as minhas transições de emprego de forma muito leal e transparente. Entendo que o mercado é muito dinâmico, portanto, preservar a reputação e a credibilidade são questões prioritárias”, afirma.

Em agosto de 2019, Waldyr, que é formado em administração de empresas, foi procurado por uma companhia de recrutamento para participar de uma seleção para uma posição regional na América Latina. Só no meio do processo, soube que a vaga era na Harley-Davidson. Ele resolveu aceitar o novo desafio, onde já conhecia pelo menos 60% do time, e teve uma receptividade muito positiva.

Os segredos para deixar as portas abertas ao sair de um emprego, na opinião dele, são dois. “Em primeiro lugar, desempenhar um bom papel em suas funções, com profissionalismo e nível de entrega elevado. Além disso, conduzir a conversa com o RH e com seus superiores de forma muito honesta e aberta, dizendo para onde está indo e as suas motivações para tomar a decisão. Em um primeiro momento, é natural que a empresa lamente e que as pessoas envolvidas fiquem chateadas, mas, com o tempo, todos entendem as suas motivações”, diz.

Debora Vargas Leal Oliveira, gerente de tesouraria da Votorantim

Em 2012, a engenheira civil Débora, 31 anos, de Salvador, entrou como trainee na Votorantim, em São Paulo, e logo foi promovida a analista financeiro, cargo que ocupou até 2014, quando seu marido foi transferido para Cuiabá e ela optou por pedir demissão para acompanhá-lo.

“O gestor entendeu que foi uma decisão mais voltada para a vida pessoal, e me apoiou”, diz ela, que passou a participar do programa Alumni, uma iniciativa da companhia para manter contato próximo com talentos que deixaram a empresa.

Na capital do Mato Grosso, ela se recolocou como coordenadora de tesouraria na Odebrecht, e ali ficou por três anos. Nesse período, manteve o relacionamento com o pessoal da antiga empresa e, sempre que viajava a São Paulo, arrumava uma brecha na agenda para um almoço com alguém do grupo.

O convite para retornar surgiu quando uma ex-colega foi promovida a gestora. “Ela me ligou e disse que precisava de alguém que pudesse ser parceira na missão de reestruturar a área”, conta.

Apesar de a Odebrecht atravessar um período difícil na época, Debora não estava procurando emprego, mas achou que o convite era irrecusável, pois assumiria, em janeiro de 2017, um cargo mais alto, de gerente de tesouraria.

“A Votorantim tinha passado por uma transformação, as atividades eram diferentes, havia novas áreas e o ambiente também tinha mudado, mas continuava acolhedor, por isso a readaptação foi muito tranquila”, afirma. “Nem parece que passei um período fora.” Para ela, manter um bom relacionamento foi essencial para o retorno. “Vale a pena criar laços profissionais”, diz.

José Gaspar Quintana, gerente financeiro do Grupo Cataratas

Graduado em ciências contábeis e pós-graduado em auditoria e controladoria, José Gaspar, 36 anos, ingressou no Grupo Cataratas, em Foz do Iguaçu, em 2014 como encarregado contábil.

Depois de um ano e meio, decidiu colocar em prática o sonho de empreender – foi transparente com o gestor e pediu demissão para abrir o próprio escritório contábil. Logo surgiu a oportunidade de prestar serviço para a empresa e a proximidade foi mantida, até que, em 2016, recebeu do gerente de controladoria e do diretor o convite para voltar para a companhia em regime CLT.

“Fiquei muito feliz pelo reconhecimento do meu trabalho. Aceitei a proposta principalmente porque o desafio seria importante para o desenvolvimento da minha carreira e pela expectativa de prosperar na empresa”, diz.

Ao assumir como supervisor administrativo financeiro, ele viu que era melhor se dedicar só ao emprego e deixou a sociedade no escritório. Em pouco tempo, foi promovido a gerente administrativo e, hoje, tem salário 45% maior do que na primeira passagem pela companhia.

Maria Alejandra Valois, analista de marketing da HostGator

A jornalista colombiana Maria Alejandra, 30 anos, entrou na provedora de hospedagem de sites HostGator, em Florianópolis, em janeiro de 2018, como analista de conteúdo para a América Latina.

Ali ficou por seis meses, até que viu no LinkedIn uma vaga em uma startup badalada de Curitiba. Apesar de gostar muito da empresa, do cargo e da cultura em que estava inserida, o desejo de mudar falou mais alto. “Curitiba é grande, muito parecida com a minha cidade, Bogotá, e a possibilidade de ir para um lugar maior pesou”, conta. Mas ela não conseguiu se adaptar à nova cidade. O inverno pesado intensificou a sensação de solidão e, em dois meses, ela decidiu dar um passo atrás e procurar a HostGator.

“Nunca cortei os relacionamentos. E, quando soube que não havia ninguém me substituindo, achei que valeria tentar voltar”, diz. Em uma viagem para Florianópolis, conversou com a ex-chefe e assuntou sobre as regras do RH. Sem impedimentos, reassumiu seu cargo em agosto de 2018, ganhou novas responsabilidades e até um aumento salarial.

“Tinha medo de queimar o currículo por ter ficado tão pouco tempo em Curitiba, mas isso não aconteceu. Quando voltei para a HostGator, com mais energia e ideias novas, encontrei o computador com mensagens de boas-vindas em post its. Era como se nunca tivesse saído dali”, afirma. 

 

Fonte: Você S/A