Novos programas de recolocação incluem mais funcionários

Antes um benefício restrito a altos executivos, o "outplacement", que ajuda profissionais demitidos com a recolocação no mercado, agora está sendo oferecido para mais níveis hierárquicos. As consultorias de carreira que oferecem o serviço estão lançando produtos repaginados, que fazem uso da tecnologia e podem ser oferecidos em maior quantidade, mas ainda de forma relativamente personalizada.

A demanda vem do aumento nos cortes decorrentes da crise econômica. Segundo especialistas, as empresas estão dispostas a gastar para tentar promover um desligamento menos traumático para o funcionário, proteger-se de futuros processos trabalhistas e amenizar o impacto que os cortes terão no clima organizacional.

Tradicionalmente, o outplacement para executivos é um acompanhamento por cerca de seis meses de um consultor, que ajuda o profissional a avaliar e repensar a carreira e dá auxílio para que ele encontre uma nova posição no mercado.

Na Stato, a procura das empresas por outplacement para níveis mais juniores e para profissionais operacionais ou técnicos dobrou na comparação com o ano passado, o que fez a empresa lançar um serviço de outplacement virtual. A ferramenta inclui uma plataforma on-line que disponibiliza banco de vagas selecionadas pela consultoria, material de apoio com informações sobre carreira e recolocação e contato com consultores da Stato, que se comunicam por telefone, chat ou Skype.

Se a empresa quiser, pode incluir no serviço um workshop em grupo com um consultor, ou um encontro individual no início do processo. "É possível modular o programa de acordo com o orçamento e a cultura da empresa", explica a diretora geral da Stato, Lucia Costa.

Na estimativa de Lucia, 40% do público que recebe esse serviço hoje não receberia nenhum apoio desse tipo durante uma demissão há alguns anos. Os demais são aqueles para quem as empresas normalmente dão seminários em grupo ou entregam apostilas relacionadas ao desligamento. "O virtual trouxe a oportunidade de a empresa oferecer o programa pra mais gente com o mesmo orçamento", diz.

Segundo Lucia, o custo varia de acordo com as necessidades da empresa, mas o uso do serviço virtual pode diminuir em 30% o valor do outplacement tradicional. A duração do processo mais recomendada é de três meses. A demanda pelo outplacement fez a Stato começar a oferecer, recentemente, o serviço virtual diretamente para profissionais que queiram contratar a ferramenta por contra própria. Desde julho do ano passado, a consultoria já oferece o serviço para executivos na modalidade pessoa física.

Em dezembro, a consultora comercial Fabiana Valente da Rocha foi demitida da empresa em que estava há cerca de um ano e meio após cortes da companhia na unidade do Rio de Janeiro, onde ela mora. A empresa lhe disse que ela "não ficaria desamparada", mas a princípio Fabiana não deu tanta atenção ao serviço de outplacement que foi oferecido por três meses após a demissão. "Achei que seria só um cursinho, como já tinha acontecido em outra empresa", diz.

Ela acabou usando a ferramenta de outplacement da consultoria Randstad, lançada no início do ano no Brasil. Fabiana fez uma primeira reunião com uma consultora e depois teve conversas por Skype de 15 em 15 dias, junto com apoio por telefone quando Fabiana queria tirar dúvidas. O processo incluiu simulação de entrevista, avaliação de currículo e dicas de como melhorar o perfil no LinkedIn e fazer buscas por oportunidades, além de acesso a vagas disponibilizadas na plataforma on-line de apoio ao serviço. "É um olhar de RH que eu não tenho e é um apoio psicológico também, que ajuda a entender um pouco de você mesma e seus pontos a desenvolver", diz.

Em junho, Fabiana começou um emprego em uma concorrente da companhia onde atuava antes, também da área de comercialização de benefícios, em um cargo mais sênior do que aquele que tinha antes da demissão. "Fiquei muito satisfeita, até liguei para ela [a consultora], mesmo depois de terminar o contrato com eles, para contar", diz.

A multinacional Randstad lançou o serviço de outplacement no Brasil com perfis diferentes de acordo com o nível do profissional. O programa voltado para profissionais mais juniores ou técnicos foi o mais procurado, segundo Isabela Tuca, consultora de HR Solutions da Randstad Professionals Brasil. Ele é oferecido, inclusive, para profissionais de nível operacional que têm muitos anos de casa.

O programa tem duração de três meses - menos que os cinco para gerência e os nove para executivos - e inclui uma plataforma on-line com conteúdo e material de apoio. Todos os processos incluem, no entanto, encontros presenciais.

Globalmente, a Randstad adquiriu no fim do ano passado a empresa americana Risesmart, especialista em outplacement virtual. A Randstad considerou trazer o produto 100% on-line ao Brasil, mas a aceitação não foi boa, segundo Isabela. "Sentimos que as pessoas querem o contato", diz. O investimento da empresa cliente no programa para profissionais mais juniores é de R$ 5 mil por funcionário, com preços menores se o número de assessorados passar de 10.

A empresa criou recentemente um produto ainda mais simples, usado em geral para profissionais de perfil bastante iniciante, que é formado apenas por uma reunião individual de cerca de três horas, em que o demitido recebe orientação para recolocação, como revisão de currículo e apoio no uso de ferramentas como LinkedIn. Chamado de "personal branding", ele custa R$ 1 mil à companhia, também caindo de preço quando o volume de funcionários aumenta. A Randstad também pretende facilitar a comercialização das ferramentas para facilitar o uso por empresas de pequeno e médio porte.

De acordo com Isabela, usar o outplacement com mais frequência e para mais públicos diferentes hoje faz parte da estratégia de responsabilidade social das companhias - que incluem essa informação em seus relatórios - e de mitigar os danos à marca da empresa como empregadora, até para manter a porta aberta para aqueles que saem. "Por corte de custo, as empresas estão desligando pessoas que performam bem e têm tempo de casa. O momento econômico é cíclico, e quando houver uma retomada, elas podem voltar", diz.

Há 20 anos no Brasil, a LHH tem há 7 uma unidade dedicada ao outplacement de níveis juniores, que atende analistas, coordenadores e especialistas. Nos últimos 18 meses, fruto da crise, a área teve crescimento de 50% no número de novos clientes-empresa. Para José Augusto Figueiredo, presidente no Brasil da consultoria, a busca por mais programas desse tipo também contribui para que as empresas se protejam de ações trabalhistas. "Quando você investe em politicas de transição de carreira, é possível evitar custo de ações trabalhistas na ordem de 35%. As grandes corporações já fizeram essa conta", diz.

É também uma forma de amenizar o clima da organização internamente, apesar dos cortes e demissões. "Ela consegue manter o clima interno interessante porque qualquer pessoa sente que se amanhã acontecer com ela, ela vai ter condição de recomeçar", diz. A volta ao mercado está cada vez mais demorada, no entanto. Entre abril de 2015 e 2016, o tempo de recolocação médio para profissionais não-executivos subiu de 3,1 para 4,6 meses, segundo a LHH. Na consultoria, o programa não-executivo inclui workshop em grupo, encontros com consultores, plataforma de e-learning e conversas por telefone. A mudança mais recente foi a inclusão de minicursos profissionalizantes on-line, abordando assuntos que variam de empreendedorismo a pacote Office.